Paulo Fortuna
Para o Valor, de São Paulo
A região Nordeste foi a que mostrou maior crescimento na demanda por crédito de pessoas físicas no Brasil no ano de 2010, de acordo com levantamento realizado pela Serasa Experian. Enquanto nacionalmente a demanda subiu 16,4% , nos estados nordestinos a alta foi de 17,7%. Para dirigentes empresariais da região, a expansão do crédito é resultado do crescimento da economia dos Estados nordestinos, acima da média nacional, impulsionados pelos investimentos recebidos nos últimos anos e que se refletiram no aumento de renda e geração de empregos.
Em janeiro, a tendência foi ainda mais acentuada, já que o crescimento no Nordeste foi de 19,7% em relação ao mesmo mês do ano passado, enquanto a média nacional foi 12,9%. “Antigamente, os estados nordestinos eram os que mais sofriam com as crises. Mas na última crise internacional o Nordeste foi a região menos atingida e a primeira a dar uma resposta positiva”, afirma o presidente da Associação Comercial do Ceará, João Guimarães. No caso do Ceará, obras como a drenagem do porto de Mucuripe, que ampliaram o volume de cargas movimentadas, deram mais dinamismo à economia local, afirma.
Guimarães, que também presidente do Sebrae-Ceará, também destacou as obras Porto de Pecém, que incluem um novo espaço que será destinado à exportação de placas de aço produzidas na usina que deverá operar junto ao complexo portuário a partir de 2014. Guimarães acredita que o volume de empregos gerados por estes investimentos deve contribuir para que o comércio local mantenha níveis de crescimento elevado nos próximos anos.
O presidente da Câmara dos Dirigentes Lojistas (CDL) de Recife, Eduardo Catão, destacou que o bom momento econômico de Pernambuco – “muito beneficiado pelo governo Lula”, que nasceu no Estado – ajudou a alavancar o comércio local. “As consultas ao SPC (Sistema de Proteção ao Crédito) no Recife cresceram 25% em dezembro sobre o mesmo período do ano passado”, afirma ele. Segundo ele, o varejo local teve dificuldade de contratar mão-de-obra no final do ano passado para atender o crescimento da demanda.
Catão acredita que a economia da Pernambuco também continuar a crescer com a chegada de novos investimentos, como a construção da fábrica da Fiat no Complexo Industrial e Portuário de Suape, com investimentos de R$ 3 bilhões e que deve gerar 3,5 mil empregos, além de atrair outras empresas para o Estado.
De olho no crescimento deste mercado consumidor, grandes redes nacionais de varejo estão dando prioridade para investimentos no Nordeste, destaca o
presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Natal, Amauri Alves da Fonseca Filho. A expansão dos grandes varejistas nacionais não ocorre somente com a abertura de novas lojas, mas também na compra de redes locais, destaca
Fonseca Filho, lembrando a compra do ano passado da rede de lojas Maia, com sede na Paraíba, pelo Magazine Luiza. Somente no Rio Grande do Norte, o investimento anunciado pela Luiza foi de até R$ 8 milhões. De acordo com ele, apesar do cenário positivo, já a comerciantes locais preocupados com a concorrência dos gigantes nacionais que chegaram recentemente.
sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011
Classes de menor renda impulsionam compras parceladas
Paulo Fortuna
Para o Valor, de São Paulo
Sem a alternativa de poder financiar as compras em várias prestações, seria muito mais difícil para a faxineira Josy Lira de Jesus equipar a sua casa, assim como para a estudante de enfermagem, Priscila de Assis, comprar um computador e para a manicure Scheila Moraes conquistar a tão cobiçada nova TV. A compra parcelada deu mais fôlego ao taxista Rafael Zimmer para bancar a demanda de roupas do pequeno Raul, de um ano. Essas pessoas compõem o universo de consumidores que fizeram crescer, em 2010, a procura por crédito em 16,4%, o que mostra a forte recuperação em relação a 2009, quando a demanda teve um recuo de 1,2%, de acordo com indicador da Serasa Experian.
Segundo a Serasa, a demanda por crédito subiu em todas as faixas de consumo, mas o crescimento foi puxado pelos consumidores com renda menor e que foram beneficiados com a diminuição da informalidade no mercado de trabalho e, com isso, tiveram mais acesso aos financiamentos. Entre os que ganham até R$ 500,00 por mês, por exemplo, a alta foi de 46,3% sobre 2009.
A possibilidade de financiar compras com cartão de crédito fez com que a faxineira Josy Lira de Jesus partisse para a compra de uma série de bens para a casa. Televisão, cama, colchão e computador foram itens adquiridos com o dinheiro de plástico, em “compras parceladas sem juros”, garante ela. Josy diz que conseguiu aumentar a compra de bens com uma mudança na estratégia de financiamento: a troca dos tradicionais carnês pelo cartão. “Comprando com o carnê, eu até conseguia um prazo maior, mas o juro era muito alto” diz ela, que ainda tem que equilibrar o pagamento de todas estas contas com itens como o aluguel.
O casal Rafael Zimmer, taxista, e Gláucia dos Santos, ascensorista, não tem gastos com aluguel, graças ao auxílio das suas famílias para comprar uma casa própria, mas recorreram ao crediário por conta de uma despesa extra: o nascimento de Raul, que completou 1 ano e 6 meses. “Essa foi a melhor forma que encontramos para bancar as constantes compras de roupa para uma criança desta faixa de idade”, diz Zimmer, lembrando que todos os gastos do casal são decididos em conjunto.
A manicure Scheila Moraes e o seu marido, o mecânico Lauro Rodrigues, optaram por financiamentos mais longos para adquirir novos bens. Tanto o primeiro computador da família quanto a moderna TV de LCD estão sendo pagos em 24 parcelas. Scheila reconhece que o prazo de pagamento é longo e os juros são altos, mas acertou com o marido que, enquanto as prestações não forem quitadas, o casal não vai assumir nenhum outro compromisso financeiro pesado.
O gráfico Everton Corrêa e a estudante de enfermagem Priscila de Oliveira, casados há um ano, já tinham a casa montada, mas faltava um item importante: o computador. “Não há como cursar a faculdade atualmente sem ter um computador em casa. Até os trabalhos têm ser entregues pela internet”, diz Priscila. Como o pagamento à vista iria onerar demais o orçamento do casal, a solução foi parcelar em 12 vezes, com um cartão da bandeira da rede que vendeu a máquina. “Com um cartão de crédito comum, o prazo de pagamento seria menor e a prestação mais pesada”, explica Corrêa.
Mas as perspectivas para expansão do crédito em 2011 são mais modestas. O economista da Serasa Experian Carlos Henrique de Almeida lembra que o crescimento de 2010 ocorreu em cima da base de 2009 ainda afetada pelos efeitos da crise internacional. Ele destaca também que justamente onde houve maior crescimento de crédito, como na faixa de renda de até R$ 500,00 mensais, dificilmente a expansão será a mesma. “É uma parcela que estava praticamente à margem do sistema de crédito e passou a fazer parte do mercado. Mas a sua capacidade de endividamento é pequena”, ressalta Almeida.
Segundo dados da Serasa, já há sinais de desaceleração da expansão do crédito, ainda que num quadro de crescimento. Conforme o indicador da entidade, a quantidade de pessoas que procurou crédito cresceu 12,9% em janeiro de 2011 quando comparada com o mesmo mês do ano passado, ,mas esta foi a menor taxa de expansão anual dos últimos seis meses.
O economista aponta que o cenário geral é de crédito mais restrito neste ano. “Os juros estão mais altos, por conta das medidas de restrição ao crédito por parte do Banco Central e aumento da taxa Selic, além do crescimento da inadimplência”, afirma ele. De acordo dados da Serasa, a inadimplência do consumidor brasileiro cresceu 6,3% em 2010, na comparação com 2009. Em 2009, havia sido registrado um crescimento de 5,9% da inadimplência na comparação com 2008. Já em janeiro deste ano a alta foi de 24,8% sobre o mesmo período do ano passado, o maior crescimento anual desde julho de 2002. controle.
“A inadimplência responde por 32% do custo de formação do crédito e isso vai encarecer os financiamentos”, diz ele, ressaltando que no Brasil tradicionalmente o aumento da concessão de crédito é acompanhando de mais inadimplência. “Essa situação só poderá mudar quando for implantado o cadastro positivo, com a melhora da qualidade do crédito no País”, afirma o economista.
O especialista em crédito José Pereira da Silva, professor da FGV- EAESP (Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas), também acredita que os números relativos ao crédito para pessoas físicas em 2011 serão mais modestos do que no ano passado. Silva lembra que o aumento do crédito em 2010 ainda foi resultado dos estímulos do governo para combater os efeitos da crise em 2008 e 2009, mas a tendência atual é inversa, por conta da preocupação com a escala inflacionária. Silva ressalta que certamente a economia brasileira crescerá menos em 2011, com reflexos na geração de empregos e na formalização no mercado de trabalho, fatores que também ajudaram a impulsionar o crédito no ano passado.
Haroldo Torres, presidente da Plano CDE, empresa especializada em ações de mercado para os consumidores destas faixas de renda, acredita que os índices de endividamento no País ainda não são preocupantes. Para ele, os consumidores da classe E, que tiveram acesso recente ao crédito, têm pouca capacidade de se endividar e, com isso, menos chances de ficar inadimplentes. Segundo Torres,os maiores riscos estão entre os consumidores com renda mensal entre R$ 2 mil e R$ 3 mil que, simultaneamente, adquiriram nos últimos anos automóveis ou motocicletas, compraram imóveis - através de programas como o “Minha Casa, Minha Vida”, - e passaram a pagar ensino privado. “São pessoas que fizeram financiamentos de longo prazo e podem ter dificuldade em saldar todos estes compromissos nos próximos anos”, afirma ele.
Para o Valor, de São Paulo
Sem a alternativa de poder financiar as compras em várias prestações, seria muito mais difícil para a faxineira Josy Lira de Jesus equipar a sua casa, assim como para a estudante de enfermagem, Priscila de Assis, comprar um computador e para a manicure Scheila Moraes conquistar a tão cobiçada nova TV. A compra parcelada deu mais fôlego ao taxista Rafael Zimmer para bancar a demanda de roupas do pequeno Raul, de um ano. Essas pessoas compõem o universo de consumidores que fizeram crescer, em 2010, a procura por crédito em 16,4%, o que mostra a forte recuperação em relação a 2009, quando a demanda teve um recuo de 1,2%, de acordo com indicador da Serasa Experian.
Segundo a Serasa, a demanda por crédito subiu em todas as faixas de consumo, mas o crescimento foi puxado pelos consumidores com renda menor e que foram beneficiados com a diminuição da informalidade no mercado de trabalho e, com isso, tiveram mais acesso aos financiamentos. Entre os que ganham até R$ 500,00 por mês, por exemplo, a alta foi de 46,3% sobre 2009.
A possibilidade de financiar compras com cartão de crédito fez com que a faxineira Josy Lira de Jesus partisse para a compra de uma série de bens para a casa. Televisão, cama, colchão e computador foram itens adquiridos com o dinheiro de plástico, em “compras parceladas sem juros”, garante ela. Josy diz que conseguiu aumentar a compra de bens com uma mudança na estratégia de financiamento: a troca dos tradicionais carnês pelo cartão. “Comprando com o carnê, eu até conseguia um prazo maior, mas o juro era muito alto” diz ela, que ainda tem que equilibrar o pagamento de todas estas contas com itens como o aluguel.
O casal Rafael Zimmer, taxista, e Gláucia dos Santos, ascensorista, não tem gastos com aluguel, graças ao auxílio das suas famílias para comprar uma casa própria, mas recorreram ao crediário por conta de uma despesa extra: o nascimento de Raul, que completou 1 ano e 6 meses. “Essa foi a melhor forma que encontramos para bancar as constantes compras de roupa para uma criança desta faixa de idade”, diz Zimmer, lembrando que todos os gastos do casal são decididos em conjunto.
A manicure Scheila Moraes e o seu marido, o mecânico Lauro Rodrigues, optaram por financiamentos mais longos para adquirir novos bens. Tanto o primeiro computador da família quanto a moderna TV de LCD estão sendo pagos em 24 parcelas. Scheila reconhece que o prazo de pagamento é longo e os juros são altos, mas acertou com o marido que, enquanto as prestações não forem quitadas, o casal não vai assumir nenhum outro compromisso financeiro pesado.
O gráfico Everton Corrêa e a estudante de enfermagem Priscila de Oliveira, casados há um ano, já tinham a casa montada, mas faltava um item importante: o computador. “Não há como cursar a faculdade atualmente sem ter um computador em casa. Até os trabalhos têm ser entregues pela internet”, diz Priscila. Como o pagamento à vista iria onerar demais o orçamento do casal, a solução foi parcelar em 12 vezes, com um cartão da bandeira da rede que vendeu a máquina. “Com um cartão de crédito comum, o prazo de pagamento seria menor e a prestação mais pesada”, explica Corrêa.
Mas as perspectivas para expansão do crédito em 2011 são mais modestas. O economista da Serasa Experian Carlos Henrique de Almeida lembra que o crescimento de 2010 ocorreu em cima da base de 2009 ainda afetada pelos efeitos da crise internacional. Ele destaca também que justamente onde houve maior crescimento de crédito, como na faixa de renda de até R$ 500,00 mensais, dificilmente a expansão será a mesma. “É uma parcela que estava praticamente à margem do sistema de crédito e passou a fazer parte do mercado. Mas a sua capacidade de endividamento é pequena”, ressalta Almeida.
Segundo dados da Serasa, já há sinais de desaceleração da expansão do crédito, ainda que num quadro de crescimento. Conforme o indicador da entidade, a quantidade de pessoas que procurou crédito cresceu 12,9% em janeiro de 2011 quando comparada com o mesmo mês do ano passado, ,mas esta foi a menor taxa de expansão anual dos últimos seis meses.
O economista aponta que o cenário geral é de crédito mais restrito neste ano. “Os juros estão mais altos, por conta das medidas de restrição ao crédito por parte do Banco Central e aumento da taxa Selic, além do crescimento da inadimplência”, afirma ele. De acordo dados da Serasa, a inadimplência do consumidor brasileiro cresceu 6,3% em 2010, na comparação com 2009. Em 2009, havia sido registrado um crescimento de 5,9% da inadimplência na comparação com 2008. Já em janeiro deste ano a alta foi de 24,8% sobre o mesmo período do ano passado, o maior crescimento anual desde julho de 2002. controle.
“A inadimplência responde por 32% do custo de formação do crédito e isso vai encarecer os financiamentos”, diz ele, ressaltando que no Brasil tradicionalmente o aumento da concessão de crédito é acompanhando de mais inadimplência. “Essa situação só poderá mudar quando for implantado o cadastro positivo, com a melhora da qualidade do crédito no País”, afirma o economista.
O especialista em crédito José Pereira da Silva, professor da FGV- EAESP (Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas), também acredita que os números relativos ao crédito para pessoas físicas em 2011 serão mais modestos do que no ano passado. Silva lembra que o aumento do crédito em 2010 ainda foi resultado dos estímulos do governo para combater os efeitos da crise em 2008 e 2009, mas a tendência atual é inversa, por conta da preocupação com a escala inflacionária. Silva ressalta que certamente a economia brasileira crescerá menos em 2011, com reflexos na geração de empregos e na formalização no mercado de trabalho, fatores que também ajudaram a impulsionar o crédito no ano passado.
Haroldo Torres, presidente da Plano CDE, empresa especializada em ações de mercado para os consumidores destas faixas de renda, acredita que os índices de endividamento no País ainda não são preocupantes. Para ele, os consumidores da classe E, que tiveram acesso recente ao crédito, têm pouca capacidade de se endividar e, com isso, menos chances de ficar inadimplentes. Segundo Torres,os maiores riscos estão entre os consumidores com renda mensal entre R$ 2 mil e R$ 3 mil que, simultaneamente, adquiriram nos últimos anos automóveis ou motocicletas, compraram imóveis - através de programas como o “Minha Casa, Minha Vida”, - e passaram a pagar ensino privado. “São pessoas que fizeram financiamentos de longo prazo e podem ter dificuldade em saldar todos estes compromissos nos próximos anos”, afirma ele.
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
A formação de uma rede
Por Paulo Fortuna
Revista Conselhos
Publicação da Fecomércio-SP
Mercado financeiro sólido, estabilidade política e econômica, respeito aos marcos regulatórios e taxas de crescimento acima da média global. Ingredientes como esses fazem com que a América Latina tenha tudo para promover uma rede de negócios integrada, e com o Brasil, principalmente São Paulo e Rio de Janeiro, funcionando como o polo catalizador dessa integração. O cenário consta do primeiro relatório divulgado em dezembro pelo Brain (Brasil Investimentos e Negócios), entidade que tem entre seus integrantes a Fecomercio-SP. A divulgação do documento ocorreu na sede da entidade, na capital paulista.
O diretor-presidente do Brain, Paulo Oliveira, destaca que quadro desenhado na economia da região mostra que é possível mudar a situação atual em que grande parte das operações financeiras executadas por empresas latino-americanas se dão fora do continente, em praças como Nova York ou Londres, gerando custos adicionais e à redução das oportunidades de negócios locais. “A América Latina tem a oportunidade de configurar uma verdade rede multipolar, distanciando-se do modelo atual, radial, em que todos os polos locais dependem diretamente dos serviços oferecidos pelo grande polos globais”, afirma Oliveira.
Ele ressalta que os benefícios de uma maior integração extrapolam os limites do mercado financeiro e devem se estender a diversos setores da economia.
O executivo acrescenta que a formação de uma rede de negócios regional pode
beneficiar em especial as pequenas e médias empresas que, de outra forma, não teriam acesso ao mercado internacional.
O presidente da Fecomércio-SP, Abram Szajman, ressalta que a iniciativa do Brain pode contribuir para que, preenhendo essa lacuna no ambiente de negócios da região, São Paulo e Rio de Janeiro possam representar o mesmo que Hong Kong e Cingapura significam para a Ásia: o centro de uma região interconectada com conexões globais otimizadas com os demais centros financeiros regionais.
Szajman lembra que, em relação ao tamanho de sua economia, hoje a 8ª do mundo, o Brasil ainda tem uma participação modesta no fluxo comercial global. “A participação do País no comércio internacional está muito abaixo de nossas necessidades e potencialidades”, afirma o presidente da entidade.
O relatório do Brain destaca que a economia regional, diferentemente do que ocorria décadas atrás, a América Latina apresenta um grau de estabilidade propício para o desenvolvimento de novos negócios. O documento destaca que cinco países da região (Brasil, Chile, México, Colômbia e Peru) já receberam grau de investimento e que, em meio à crise financeira global, os bancos do continente permaneceram sólidos, apresentando níveis de capitalização e liquidez para enfrentar grandes desafios financeiros. Além disso, operam dentro de marcos regulatórios reconhecidamente melhor desenhados para evitar crises.
O crescimentos das economias latino-americanas acima da média global e dos países mais ricos e o fortalecimento dos mercados locais também são pontos destacados no relatório do Brain. O PIB combinado da América Latina é de US$ 3,5 trilhões, comparável ao da China e superior ao da Rússia, Índia e o Leste Europeu.
O Brasil é destaque por mercado interno em franca expansão, impulsionado pelo aumento de renda e pela ascenção de chamada “nova classe média” e por sua posição cada vez mais relevante no comércio internacional. Mas, destaca o documento do Brain, o País pode ir mais além. A Brain identifica três alavancas de oportunidade para que o Brasil continue expandindo seu posicionamento: crescimento ininterrupto do mercado local, apoiado pelo estímulo ao aumento de sua competitividade; reforço e a ampliação das conexões regionais dentro da própria América Latina; desenvolvimento de projeção e conexões globais.
Segundo Paulo Oliveira, em abril próximo o Brain deve divulgar um estudo sobre como a legislação dos mercados dos países da América Latina podem ser harmonizados, facilitando o processo de integração.
O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, que participou do lançamento do relatório da Brain, ressaltou que a combinação do crescimento sustentável com estabilidade econômica são fatores essenciais para o Brasil ter se tornado um polo preferencial de investimentos. Meirelles lembrou o País só conseguiu atingir esse patamar porque tomou medidas, ao longo dos últimos, para se precaver das crises financeiras.
Também há obstáculos a serem superados tanto pelo Brasil quanto pela América Latina para que seja implantada uma rede de negócios integrada. No documento,
a Brain destacou que os avanços passam pela criação de sistemas de pagamentos interligados, como ocorre no norte da Europa, e na formação de um mercado de capitais regional mais representativo e forte do que as bolsas locais individuais.
Outros desafios serão melhorar a malha aérea da região, que é pouco densa, e desenvolver uma infraestrutura mais integrada de transportes e de comunicação.
O Brain ainda destacou a necessidade dos países latino-americanos reforçarem os esforços para simplificar e harmonizar suas regulações. No caso brasileiro, as principais barreiras dizem respeito ao sistema tributário complexo, a excessiva burocracia e a disponibilidade limitada de profissionais em alguns setores essenciais.
Guilhermo Larrain, ex-superintentende de Valores, Seguros e Pensões do Chile e atualmente consultor da Brain destacou que a economia brasileira ainda é relativamente fechada ao mercado internacional e, justamente por isso, há grande possibilidade de aumentar a integração com outros países da América Latina. Larrian ressaltou que há um grande interesse do setor privado em avançar numa rede de negócios na região, até mais do que os governos locais. “O interesse das empresas são de um prazo muito mais longo do que o dos governos”, destacou Larrain.
Oliveira também avalia que já há uma grande disposição das empresas da região em estimular a integração regional, com a criação das multilatinas, multinacionais formadas com capital majoritariamente local com grande presença regional e internacional. “Uma rede regional mais forte na América Latina será fundamental para potencializar o crescimento local e garantir para as empresas condições favoráveis para se expandirem e se internacionalizarem”, diz. Ele lembra, por exemplo, o recente anúncio da fusão das operações da brasileira TAM e da chilena Lan, que possibilitará a criação de uma gigante regional no setor de aviação.
A integração da região também está evoluindo para o mercado de capitais. Em dezembro, foi assinado o acordo de cooperação com a bolsa chileno, Segundo o diretor presidente da BM&FBovespa, Edemir Pinto, o acordo prevê uma parceria na qual a bolsa brasileira contribuirá na promoção de iniciativas para fomentar o mercado local. Segundo o dirigente, que esteve presente à divulgação do relatório do Brain, o acordo pode evoluir para que papéis listados no mercado chileno sejam negociados na BM&FBovespa e vice-versa.
Conforme Edemir Pinto, a tendência é que acordos semelhantes sejam fechados pela BM&Bovespa com outras bolsas em 2011. As próximas devem ser as da Colômbia e do Peru, que estão em processo de integração.
De acordo com o presidente da Fecomércio-SP, o estímulo ao mercado de capitais pode ter efeito sobre toda a atividade econômica do País e da América Latina. “Acreditamos que a Brain pode e deve ter uma conseqüência semelhante ao que ocorre quando uma grande pedra é lançada no centro de um lago: seus efeitos vão muito além do impacto inicial – neste caso, o mercado de capitais – espalhando-se por ondas que movimentam toda a superfície da atividade econômica.
Revista Conselhos
Publicação da Fecomércio-SP
Mercado financeiro sólido, estabilidade política e econômica, respeito aos marcos regulatórios e taxas de crescimento acima da média global. Ingredientes como esses fazem com que a América Latina tenha tudo para promover uma rede de negócios integrada, e com o Brasil, principalmente São Paulo e Rio de Janeiro, funcionando como o polo catalizador dessa integração. O cenário consta do primeiro relatório divulgado em dezembro pelo Brain (Brasil Investimentos e Negócios), entidade que tem entre seus integrantes a Fecomercio-SP. A divulgação do documento ocorreu na sede da entidade, na capital paulista.
O diretor-presidente do Brain, Paulo Oliveira, destaca que quadro desenhado na economia da região mostra que é possível mudar a situação atual em que grande parte das operações financeiras executadas por empresas latino-americanas se dão fora do continente, em praças como Nova York ou Londres, gerando custos adicionais e à redução das oportunidades de negócios locais. “A América Latina tem a oportunidade de configurar uma verdade rede multipolar, distanciando-se do modelo atual, radial, em que todos os polos locais dependem diretamente dos serviços oferecidos pelo grande polos globais”, afirma Oliveira.
Ele ressalta que os benefícios de uma maior integração extrapolam os limites do mercado financeiro e devem se estender a diversos setores da economia.
O executivo acrescenta que a formação de uma rede de negócios regional pode
beneficiar em especial as pequenas e médias empresas que, de outra forma, não teriam acesso ao mercado internacional.
O presidente da Fecomércio-SP, Abram Szajman, ressalta que a iniciativa do Brain pode contribuir para que, preenhendo essa lacuna no ambiente de negócios da região, São Paulo e Rio de Janeiro possam representar o mesmo que Hong Kong e Cingapura significam para a Ásia: o centro de uma região interconectada com conexões globais otimizadas com os demais centros financeiros regionais.
Szajman lembra que, em relação ao tamanho de sua economia, hoje a 8ª do mundo, o Brasil ainda tem uma participação modesta no fluxo comercial global. “A participação do País no comércio internacional está muito abaixo de nossas necessidades e potencialidades”, afirma o presidente da entidade.
O relatório do Brain destaca que a economia regional, diferentemente do que ocorria décadas atrás, a América Latina apresenta um grau de estabilidade propício para o desenvolvimento de novos negócios. O documento destaca que cinco países da região (Brasil, Chile, México, Colômbia e Peru) já receberam grau de investimento e que, em meio à crise financeira global, os bancos do continente permaneceram sólidos, apresentando níveis de capitalização e liquidez para enfrentar grandes desafios financeiros. Além disso, operam dentro de marcos regulatórios reconhecidamente melhor desenhados para evitar crises.
O crescimentos das economias latino-americanas acima da média global e dos países mais ricos e o fortalecimento dos mercados locais também são pontos destacados no relatório do Brain. O PIB combinado da América Latina é de US$ 3,5 trilhões, comparável ao da China e superior ao da Rússia, Índia e o Leste Europeu.
O Brasil é destaque por mercado interno em franca expansão, impulsionado pelo aumento de renda e pela ascenção de chamada “nova classe média” e por sua posição cada vez mais relevante no comércio internacional. Mas, destaca o documento do Brain, o País pode ir mais além. A Brain identifica três alavancas de oportunidade para que o Brasil continue expandindo seu posicionamento: crescimento ininterrupto do mercado local, apoiado pelo estímulo ao aumento de sua competitividade; reforço e a ampliação das conexões regionais dentro da própria América Latina; desenvolvimento de projeção e conexões globais.
Segundo Paulo Oliveira, em abril próximo o Brain deve divulgar um estudo sobre como a legislação dos mercados dos países da América Latina podem ser harmonizados, facilitando o processo de integração.
O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, que participou do lançamento do relatório da Brain, ressaltou que a combinação do crescimento sustentável com estabilidade econômica são fatores essenciais para o Brasil ter se tornado um polo preferencial de investimentos. Meirelles lembrou o País só conseguiu atingir esse patamar porque tomou medidas, ao longo dos últimos, para se precaver das crises financeiras.
Também há obstáculos a serem superados tanto pelo Brasil quanto pela América Latina para que seja implantada uma rede de negócios integrada. No documento,
a Brain destacou que os avanços passam pela criação de sistemas de pagamentos interligados, como ocorre no norte da Europa, e na formação de um mercado de capitais regional mais representativo e forte do que as bolsas locais individuais.
Outros desafios serão melhorar a malha aérea da região, que é pouco densa, e desenvolver uma infraestrutura mais integrada de transportes e de comunicação.
O Brain ainda destacou a necessidade dos países latino-americanos reforçarem os esforços para simplificar e harmonizar suas regulações. No caso brasileiro, as principais barreiras dizem respeito ao sistema tributário complexo, a excessiva burocracia e a disponibilidade limitada de profissionais em alguns setores essenciais.
Guilhermo Larrain, ex-superintentende de Valores, Seguros e Pensões do Chile e atualmente consultor da Brain destacou que a economia brasileira ainda é relativamente fechada ao mercado internacional e, justamente por isso, há grande possibilidade de aumentar a integração com outros países da América Latina. Larrian ressaltou que há um grande interesse do setor privado em avançar numa rede de negócios na região, até mais do que os governos locais. “O interesse das empresas são de um prazo muito mais longo do que o dos governos”, destacou Larrain.
Oliveira também avalia que já há uma grande disposição das empresas da região em estimular a integração regional, com a criação das multilatinas, multinacionais formadas com capital majoritariamente local com grande presença regional e internacional. “Uma rede regional mais forte na América Latina será fundamental para potencializar o crescimento local e garantir para as empresas condições favoráveis para se expandirem e se internacionalizarem”, diz. Ele lembra, por exemplo, o recente anúncio da fusão das operações da brasileira TAM e da chilena Lan, que possibilitará a criação de uma gigante regional no setor de aviação.
A integração da região também está evoluindo para o mercado de capitais. Em dezembro, foi assinado o acordo de cooperação com a bolsa chileno, Segundo o diretor presidente da BM&FBovespa, Edemir Pinto, o acordo prevê uma parceria na qual a bolsa brasileira contribuirá na promoção de iniciativas para fomentar o mercado local. Segundo o dirigente, que esteve presente à divulgação do relatório do Brain, o acordo pode evoluir para que papéis listados no mercado chileno sejam negociados na BM&FBovespa e vice-versa.
Conforme Edemir Pinto, a tendência é que acordos semelhantes sejam fechados pela BM&Bovespa com outras bolsas em 2011. As próximas devem ser as da Colômbia e do Peru, que estão em processo de integração.
De acordo com o presidente da Fecomércio-SP, o estímulo ao mercado de capitais pode ter efeito sobre toda a atividade econômica do País e da América Latina. “Acreditamos que a Brain pode e deve ter uma conseqüência semelhante ao que ocorre quando uma grande pedra é lançada no centro de um lago: seus efeitos vão muito além do impacto inicial – neste caso, o mercado de capitais – espalhando-se por ondas que movimentam toda a superfície da atividade econômica.
segunda-feira, 27 de dezembro de 2010
A pauta do crescimento
Paulo Fortuna
Revista da Indústria
Publicação da Fiesp
As projeções do Indicador do Nível de Atividade (INA) da Fiesp apontam para um crescimento de 10,1% sobre 2009, quando a atividade industrial de São Paulo mostrou queda de 8%. A demanda doméstica foi decisiva para o resultado deste ano, mas os resultados poderiam ser ainda melhores se o setor de manufaturados não fosse afetado pelo cenário que reduziu a competitividade das exportações e ampliou as importações para o mercado brasileiro. O coeficiente de importação, que avalia o peso dos produtos importados sobre o consumo do País, já bateu seu recorde histórico.
O diretor do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos (Depecon) da Fiesp, Paulo Francini, destaca que a retomada do mercado interno foi decisiva
para o setor industrial se recuperar neste ano. “A combinação do aumento de renda com a expansão do crédito se reflete na geração de emprego e cria uma
maior demanda no mercado interno que é favorável à atividade industrial”, afirma Francini. O estoque de crédito, por exemplo, aumentou em termos reais 14,1% em agosto de 2010 quando comparado com o mesmo mês do ano anterior.
O diretor do Depecon lembra que a base de comparação é com 2009, quando muitos setores ainda mostraram os efeitos da crise financeira mundial. Francini
ressalta que o desempenho do setor industrial poderia ser ainda melhor não fosse o cenário desfavorável provocado principalmente pela sobrevalorização do real em relação ao dólar, que prejudicou a competitividade das empresas brasileiras.
“Há um sinal de alerta sobre o que pode acontecer em 2011”, destaca Francini,
Para que o processo de recuperação perdure no próximo ano, ressalta o diretor,
será essencial que o novo governo que se inicia em janeiro próximo enfrente, além do desequilíbio cambial, outras questões importantes que também afetam o desempenho do setor industrial. “A Selic permanece em níveis elevados e isso
continua a provocar uma migração de capitais para o setor financeiro”, exemplifica o diretor, que também citou a elevada carga fiscal que incide sobre o setor produtivo.
“Há uma guerra cambial em curso no mundo e o Brasil precisa repensar as suas estratégias”, acrescenta Francini. O diretor aponta que uma das medidas para conter a entrada de dólares no País – e reduzir a pressão sobre o câmbio – seria uma redução progressiva das taxas de juros básicos, que poderia conter o fluxo de capital externo especulativo. Mas, lembra Francini, seria necessário
que houvesse espaço fiscal para a adoção de medidas como essa, ou seja, o governo teria que controlar os seus gastos.
O diretor espera que próximo governo esteja atento sobre os riscos de desindustrialização por conta das políticas que prejudicam o setor. “Na nossa visão, o setor industrial é parte essencial do processo de crescimento do Brasil. Não há país no mundo que tenha se tornado grande sem a participação da sua indústria”, afirma Francini.
Desempenho
Dentre os 17 setores considerados pelo INA, o desempenho positivo em 2010
é esperado para 14 – Máquinas e Equipamentos, Veículos Automotores, Máquinas, Aparelhos e Materiais Elétricos, Metalurgia Básica, Produtos Metálicos, Artigos de Borracha e Plástico, Produtos Minerais não Metálicos, Móveis, Máquinas e Equipamentos para Escritório e Informática, Alimentos e Bebidas, Produtos têxteis, Equipamentos de Transporte, Celulose e Papel e Produtos Químicos.
O setor de Máquinas e Equipamentos é o que deve apresentar o maior crescimento em 2010, de 23%. Foi justamente o setor mais afetado pela crise no ano passado, em que produção caiu 24,4%. O reaquecimento da demanda doméstica alavancou as encomendas do setor, mas também houve uma contribuição importante de incentivos governamentais como o Programa de Sustentação de Investimento (PSI) do BNDES, que oferece condições financeiras mais favoráveis para a aquisição de bens de capital.
O setor de Veículos Automotores aponta para um crescimento de 16,6% para 2010. A isenção do IPI entre o final de 2008 e março de 2010 para os carros novos foi um grande fator de impulso para as vendas. No caso de caminhões e tratados, o incentivo foi prorrogado final de dezembro. Além disso, o crédito para aquisição de veículos em termos reais aumentou 35,5% em agosto de 2010 frente ao mesmo mês de 2009. O setor de Máquinas, Aparelhos e Materiais Elétricos é o terceiro no ranking de crescimento, com alta prevista de 15,6% .
Dentre os setores com previsão de queda na produção, destaque para o de Material Eletrônico e Equipamentos de Comunicação, um bem que passou a fazer parte da cesta de consumo das faixas de menor poder aquisitivo por conta do aumento da renda. A queda de 0,3% na produção ocorreu principalmente em razão da aceleração das importações de produtos da área. Seu coeficiente de importação aumentou de 26,1% para 44,6% entre 2003 e 2009, e o avanço dos produtos vindos de fora, em razão do câmbio, continua crescendo. No terceiro trimestre deste ano, o coeficiente ficou em 53,8%.
A redução prevista de 1,2% no setor de Coque, Refino de combustível e Álcool pode ser explicada principalmente pela alteração do mix de produção no setor de açúcar e etanol em São Paulo O aumento das exportações de açúcar refinado e em bruto deslocou a utilização da cana da produção de álcool. Por conta do declínio da oferta de etanol, o governo federal foi obrigado a reduzir
a mistura compulsória de álcool na gasolina em fevereiro deste ano.
Ameaças
O diretor-titular do Departamento de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Derex) da Fiesp, Roberto Gianetti da Fonseca, alerta para os riscos de desindustrialização da pauta de exportações do País e para a crescente participação de produtos manufaturados importados no mercado doméstico. De acordo com dados do Derex, o déficit comercial em manufaturados atingiu US$ 51,9 bilhões até setembro, com importações de US$ 109,2 bilhões e exportações de US$ 57,4 bilhões. Segundo Gianetti, a previsão é de que o déficit possa chegar a U$ 65 bilhões em 2010 e, se nada for feito, o valor em 2011 poderia atingir US$ 80 bilhões.”O País assiste passivo à deterioração da nossa pauta de exportações”, afirma o diretor.
Gianetti destaca que o setor industrial vem alertando que os índices de
Coeficiente de Importação (CI) – cálculo que avalia o peso das importações sobre o consumo aparente no País - mostram tendência de alta constante já há alguns anos e, em sua avaliação, o governo não vem tomando medidas para reverter o quadro. No primeiro trimestre de 2006, o CI era de 15,5%, índice que no segundo trimestre de 2010 atingiu 20,7% e que nos três meses seguintes alcançou 22,7%, batendo o recorde histórico.
Números do Derex apontam que os importados vêm ganhando cada vez mais espaço nas vendas de produtos industrializados no mercado brasileiro. No terceiro trimestre do ano, enquanto o consumo aparente de manufaturados subiu 12,9%, a produção local teve alta de 7,9%, enquanto as importações cresceram 41,7%. “Quem está se beneficiando do aumento de consumo é o produto importado e não o nacional”, diz Gianetti.
O diretor também alerta para os efeitos negativos da reversão da pauta de exportações do País. Em 2010, após 32 anos, as vendas externas de produtos manufaturados serão menores do que a de produtos básicos. Dados da Fiesp indicam que os produtos básicos ficarão com 47% das exportações, enquanto os manufaturados chegarão a 38%. “A situação ficará igual a dos anos 30, quando o País dependia apenas do café. Agora será cana, soja e minério”, diz ele.
“Não tenho nada contra a exportação de commodities, mas são produtos cujos preços enfrentam uma grande volatilidade externa. Além disso, esses setores não capazes de gerar todos os empregos que o País precisa”, completa o diretor.
Gianetti destaca que a indústria nacional tem condições de competir com os artigos importados, desde sejam estabelecidas as condições de igualdade econômica que hoje não existem. Para reverter o quadro, Gianetti sugere ao novo governo da presidente Dilma Rousseff a adoção de uma “vacina tríplice”, que incluem medidas cambiais para elevar o risco do capital especulativo e, com isso, conter a sobrevalorização do real; a devolução em até um ano dos créditos tributários aos exportadores que, segundo ele, vem sendo postergada pelo governo federal, e a redução imediata dos tributos sobre investimentos em infraestrutura logística, que acabam encarecendo os custos para os exportadores.
No campo do incentivo às exportações, Gianetti defende que a Câmara de Comércio Exterior (Camex) seja fortalecida e ganhe maior representatividade dentro do governo. A proposta do Conselho Superior de Comércio Exterior da Fiesp é dar ao titular da Camex um status de ministro, diretamente indicado pelo presidente da República.
Gianetti acredita que a Camex carece hoje de maior estrutura, inclusive em relação ao quadro de funcionários, da mesma forma que o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), ao qual está vinculada.
Segundo Gianetti, o quadro desfavorável para a indústria nacional em relação aos importados fez com que muitas empresas nacionais, pressionadas pelos custos, abandonassem a produção local e passaram a ser importadores. Outras
companhias ampliaram o uso de componentes importados em suas linhas de produção. “O empresário faz isso por uma questão de sobrevivência. Este cenário leva ao fechamento de fábricas e aumento de desemprego”, afirma o diretor.
Futuro
O economista Douglas Uemura, da LCA Consultores,, avalia que o setor industrial deve continuar a crescer no ano que vem, mas num ritmo menos acelerado, acompanhando a curva de aumento do Produto de Interno Bruto (PIB). Segundo estimativa da LCA, o PIB deve fechar em 7,2% de alta em 2010 e de 4,5% no ano que vem. “A demanda interna deve continuar aquecida em 2011, mas num ritmo de crescimento mais moderado, até mesmo porque 2010 foi um ano de recuperação da economia”, destaca o economista.
Uemura também vê com preocupação o aumento das importações de manufaturados, mas ressalta que há outras fatores, além do câmbio, que prejudicam a competitividade brasileira, principalmente em setores como eletroeletrônicos. “São necessários mais investimentos em pesquisa e inovação tecnológica para que o Brasil não continue a perder mercado para outros países que têm se destacado nestas áreas, principalmente os asiáticos”, diz ele.
O economista André Sacconato, da Tendências Consultoria Integrada, também aponta a questão do câmbio como essencial para o desempenho da indústria nacional, mas avalia que há pouca margem para o governo mudar esse cenário e acha que outras medidas específicas devem ser adotar para ampliar a competitividade do setor.
“Câmbio é preço e isso afeta os setores exportadores e facilita as importações. Mas o que há para fazer com relação a isso, o governo já tem feito. Qualquer medida mais efetiva para controlar o câmbio pode ter mais efetivos negativos que positivos, pois isso pode afastar os investimentos externos”, diz Sacconato.
O economista defende que o governo incentive os investimentos em infraestrutura, ampliando as concessões de rodovias, portos e rodovias, áreas em que o setor público, lembra ele, não tem mostrado capacidade para investir e gerenciar sozinho. “Com certeza, até por conta da conjuntura favorável ao Brasil, haveria interesse do mundo inteiro em investir nestes setores, o que daria grande impulso a diversas áreas da indústria”, destaca Sacconato
Ele lembra que a proximidade da Copa do Mundo de 2014 seria mais um motivo para reduzir as deficiências na infra-estrutura do País. “Não podemos correr o risco de um fiasco na Copa por conta de problemas com os aeroportos, por exemplo”, diz Sacconato.
Uemura também apóia mais investimentos em infraestrutura, não apenas para incentivar a atividade econômica, mas também para o País ganhar competitividade e enfrentar melhor a concorrência externa. “Estamos muito atrás em infra-estrutura, inovação tecnológica e educação e temos que investir nestes setores se queremos competir globalmente”, destaca ele.
Revista da Indústria
Publicação da Fiesp
As projeções do Indicador do Nível de Atividade (INA) da Fiesp apontam para um crescimento de 10,1% sobre 2009, quando a atividade industrial de São Paulo mostrou queda de 8%. A demanda doméstica foi decisiva para o resultado deste ano, mas os resultados poderiam ser ainda melhores se o setor de manufaturados não fosse afetado pelo cenário que reduziu a competitividade das exportações e ampliou as importações para o mercado brasileiro. O coeficiente de importação, que avalia o peso dos produtos importados sobre o consumo do País, já bateu seu recorde histórico.
O diretor do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos (Depecon) da Fiesp, Paulo Francini, destaca que a retomada do mercado interno foi decisiva
para o setor industrial se recuperar neste ano. “A combinação do aumento de renda com a expansão do crédito se reflete na geração de emprego e cria uma
maior demanda no mercado interno que é favorável à atividade industrial”, afirma Francini. O estoque de crédito, por exemplo, aumentou em termos reais 14,1% em agosto de 2010 quando comparado com o mesmo mês do ano anterior.
O diretor do Depecon lembra que a base de comparação é com 2009, quando muitos setores ainda mostraram os efeitos da crise financeira mundial. Francini
ressalta que o desempenho do setor industrial poderia ser ainda melhor não fosse o cenário desfavorável provocado principalmente pela sobrevalorização do real em relação ao dólar, que prejudicou a competitividade das empresas brasileiras.
“Há um sinal de alerta sobre o que pode acontecer em 2011”, destaca Francini,
Para que o processo de recuperação perdure no próximo ano, ressalta o diretor,
será essencial que o novo governo que se inicia em janeiro próximo enfrente, além do desequilíbio cambial, outras questões importantes que também afetam o desempenho do setor industrial. “A Selic permanece em níveis elevados e isso
continua a provocar uma migração de capitais para o setor financeiro”, exemplifica o diretor, que também citou a elevada carga fiscal que incide sobre o setor produtivo.
“Há uma guerra cambial em curso no mundo e o Brasil precisa repensar as suas estratégias”, acrescenta Francini. O diretor aponta que uma das medidas para conter a entrada de dólares no País – e reduzir a pressão sobre o câmbio – seria uma redução progressiva das taxas de juros básicos, que poderia conter o fluxo de capital externo especulativo. Mas, lembra Francini, seria necessário
que houvesse espaço fiscal para a adoção de medidas como essa, ou seja, o governo teria que controlar os seus gastos.
O diretor espera que próximo governo esteja atento sobre os riscos de desindustrialização por conta das políticas que prejudicam o setor. “Na nossa visão, o setor industrial é parte essencial do processo de crescimento do Brasil. Não há país no mundo que tenha se tornado grande sem a participação da sua indústria”, afirma Francini.
Desempenho
Dentre os 17 setores considerados pelo INA, o desempenho positivo em 2010
é esperado para 14 – Máquinas e Equipamentos, Veículos Automotores, Máquinas, Aparelhos e Materiais Elétricos, Metalurgia Básica, Produtos Metálicos, Artigos de Borracha e Plástico, Produtos Minerais não Metálicos, Móveis, Máquinas e Equipamentos para Escritório e Informática, Alimentos e Bebidas, Produtos têxteis, Equipamentos de Transporte, Celulose e Papel e Produtos Químicos.
O setor de Máquinas e Equipamentos é o que deve apresentar o maior crescimento em 2010, de 23%. Foi justamente o setor mais afetado pela crise no ano passado, em que produção caiu 24,4%. O reaquecimento da demanda doméstica alavancou as encomendas do setor, mas também houve uma contribuição importante de incentivos governamentais como o Programa de Sustentação de Investimento (PSI) do BNDES, que oferece condições financeiras mais favoráveis para a aquisição de bens de capital.
O setor de Veículos Automotores aponta para um crescimento de 16,6% para 2010. A isenção do IPI entre o final de 2008 e março de 2010 para os carros novos foi um grande fator de impulso para as vendas. No caso de caminhões e tratados, o incentivo foi prorrogado final de dezembro. Além disso, o crédito para aquisição de veículos em termos reais aumentou 35,5% em agosto de 2010 frente ao mesmo mês de 2009. O setor de Máquinas, Aparelhos e Materiais Elétricos é o terceiro no ranking de crescimento, com alta prevista de 15,6% .
Dentre os setores com previsão de queda na produção, destaque para o de Material Eletrônico e Equipamentos de Comunicação, um bem que passou a fazer parte da cesta de consumo das faixas de menor poder aquisitivo por conta do aumento da renda. A queda de 0,3% na produção ocorreu principalmente em razão da aceleração das importações de produtos da área. Seu coeficiente de importação aumentou de 26,1% para 44,6% entre 2003 e 2009, e o avanço dos produtos vindos de fora, em razão do câmbio, continua crescendo. No terceiro trimestre deste ano, o coeficiente ficou em 53,8%.
A redução prevista de 1,2% no setor de Coque, Refino de combustível e Álcool pode ser explicada principalmente pela alteração do mix de produção no setor de açúcar e etanol em São Paulo O aumento das exportações de açúcar refinado e em bruto deslocou a utilização da cana da produção de álcool. Por conta do declínio da oferta de etanol, o governo federal foi obrigado a reduzir
a mistura compulsória de álcool na gasolina em fevereiro deste ano.
Ameaças
O diretor-titular do Departamento de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Derex) da Fiesp, Roberto Gianetti da Fonseca, alerta para os riscos de desindustrialização da pauta de exportações do País e para a crescente participação de produtos manufaturados importados no mercado doméstico. De acordo com dados do Derex, o déficit comercial em manufaturados atingiu US$ 51,9 bilhões até setembro, com importações de US$ 109,2 bilhões e exportações de US$ 57,4 bilhões. Segundo Gianetti, a previsão é de que o déficit possa chegar a U$ 65 bilhões em 2010 e, se nada for feito, o valor em 2011 poderia atingir US$ 80 bilhões.”O País assiste passivo à deterioração da nossa pauta de exportações”, afirma o diretor.
Gianetti destaca que o setor industrial vem alertando que os índices de
Coeficiente de Importação (CI) – cálculo que avalia o peso das importações sobre o consumo aparente no País - mostram tendência de alta constante já há alguns anos e, em sua avaliação, o governo não vem tomando medidas para reverter o quadro. No primeiro trimestre de 2006, o CI era de 15,5%, índice que no segundo trimestre de 2010 atingiu 20,7% e que nos três meses seguintes alcançou 22,7%, batendo o recorde histórico.
Números do Derex apontam que os importados vêm ganhando cada vez mais espaço nas vendas de produtos industrializados no mercado brasileiro. No terceiro trimestre do ano, enquanto o consumo aparente de manufaturados subiu 12,9%, a produção local teve alta de 7,9%, enquanto as importações cresceram 41,7%. “Quem está se beneficiando do aumento de consumo é o produto importado e não o nacional”, diz Gianetti.
O diretor também alerta para os efeitos negativos da reversão da pauta de exportações do País. Em 2010, após 32 anos, as vendas externas de produtos manufaturados serão menores do que a de produtos básicos. Dados da Fiesp indicam que os produtos básicos ficarão com 47% das exportações, enquanto os manufaturados chegarão a 38%. “A situação ficará igual a dos anos 30, quando o País dependia apenas do café. Agora será cana, soja e minério”, diz ele.
“Não tenho nada contra a exportação de commodities, mas são produtos cujos preços enfrentam uma grande volatilidade externa. Além disso, esses setores não capazes de gerar todos os empregos que o País precisa”, completa o diretor.
Gianetti destaca que a indústria nacional tem condições de competir com os artigos importados, desde sejam estabelecidas as condições de igualdade econômica que hoje não existem. Para reverter o quadro, Gianetti sugere ao novo governo da presidente Dilma Rousseff a adoção de uma “vacina tríplice”, que incluem medidas cambiais para elevar o risco do capital especulativo e, com isso, conter a sobrevalorização do real; a devolução em até um ano dos créditos tributários aos exportadores que, segundo ele, vem sendo postergada pelo governo federal, e a redução imediata dos tributos sobre investimentos em infraestrutura logística, que acabam encarecendo os custos para os exportadores.
No campo do incentivo às exportações, Gianetti defende que a Câmara de Comércio Exterior (Camex) seja fortalecida e ganhe maior representatividade dentro do governo. A proposta do Conselho Superior de Comércio Exterior da Fiesp é dar ao titular da Camex um status de ministro, diretamente indicado pelo presidente da República.
Gianetti acredita que a Camex carece hoje de maior estrutura, inclusive em relação ao quadro de funcionários, da mesma forma que o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), ao qual está vinculada.
Segundo Gianetti, o quadro desfavorável para a indústria nacional em relação aos importados fez com que muitas empresas nacionais, pressionadas pelos custos, abandonassem a produção local e passaram a ser importadores. Outras
companhias ampliaram o uso de componentes importados em suas linhas de produção. “O empresário faz isso por uma questão de sobrevivência. Este cenário leva ao fechamento de fábricas e aumento de desemprego”, afirma o diretor.
Futuro
O economista Douglas Uemura, da LCA Consultores,, avalia que o setor industrial deve continuar a crescer no ano que vem, mas num ritmo menos acelerado, acompanhando a curva de aumento do Produto de Interno Bruto (PIB). Segundo estimativa da LCA, o PIB deve fechar em 7,2% de alta em 2010 e de 4,5% no ano que vem. “A demanda interna deve continuar aquecida em 2011, mas num ritmo de crescimento mais moderado, até mesmo porque 2010 foi um ano de recuperação da economia”, destaca o economista.
Uemura também vê com preocupação o aumento das importações de manufaturados, mas ressalta que há outras fatores, além do câmbio, que prejudicam a competitividade brasileira, principalmente em setores como eletroeletrônicos. “São necessários mais investimentos em pesquisa e inovação tecnológica para que o Brasil não continue a perder mercado para outros países que têm se destacado nestas áreas, principalmente os asiáticos”, diz ele.
O economista André Sacconato, da Tendências Consultoria Integrada, também aponta a questão do câmbio como essencial para o desempenho da indústria nacional, mas avalia que há pouca margem para o governo mudar esse cenário e acha que outras medidas específicas devem ser adotar para ampliar a competitividade do setor.
“Câmbio é preço e isso afeta os setores exportadores e facilita as importações. Mas o que há para fazer com relação a isso, o governo já tem feito. Qualquer medida mais efetiva para controlar o câmbio pode ter mais efetivos negativos que positivos, pois isso pode afastar os investimentos externos”, diz Sacconato.
O economista defende que o governo incentive os investimentos em infraestrutura, ampliando as concessões de rodovias, portos e rodovias, áreas em que o setor público, lembra ele, não tem mostrado capacidade para investir e gerenciar sozinho. “Com certeza, até por conta da conjuntura favorável ao Brasil, haveria interesse do mundo inteiro em investir nestes setores, o que daria grande impulso a diversas áreas da indústria”, destaca Sacconato
Ele lembra que a proximidade da Copa do Mundo de 2014 seria mais um motivo para reduzir as deficiências na infra-estrutura do País. “Não podemos correr o risco de um fiasco na Copa por conta de problemas com os aeroportos, por exemplo”, diz Sacconato.
Uemura também apóia mais investimentos em infraestrutura, não apenas para incentivar a atividade econômica, mas também para o País ganhar competitividade e enfrentar melhor a concorrência externa. “Estamos muito atrás em infra-estrutura, inovação tecnológica e educação e temos que investir nestes setores se queremos competir globalmente”, destaca ele.
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
Liderança hesitante
Revista Conselhos
Publicação da Fecomercio-SP
Por Paulo Fortuna
Ao tomar posse em janeiro, a presidente eleita Dilma Rousseff terá que como desafio não somente garantir, internamente, que o País mantenha uma rota de crescimento sustentável mas, no campo externo, terá que lidar com uma nova perspectiva de liderança num novo cenário em que os Brics – o grupo de formado por Brasil, Rússia, Índia e China – passaram a ter papel mais decisivo na orquestração global. Para especialistas presentes ao debate “Brasil como Potência Emergente; desafios e opções”, realizado pelo Conselho de Relações Internacionais da Fecomercio-SP em parceria com a Fletcher Scholl, dos Estados Unidos, é extensa a agenda de ações estratégicas a serem deflagradas pelo novo governo brasileiro. Todo o conteúdo desta reportagem foi extraído do evento ocorrido em 21 de outubro na sede da Fecomercio, na capital paulista.
Na avaliação do presidente do Conselho de Relações Internacionais da Fecomércio, Mario Marconini, apontou que as discussões sobre a industria, taxa de câmbio e a crescente invasão da indústria chinesa são pontos
centrais para o futuro da economia brasileira.
Ele também assinalou que o Brasil também deve procurar o seu próprio modelo de crescimento, que pode se diferenciar, por exemplo, do adotado por países asiáticos. “A Ásia também teve que aprender algumas lições que não precisamos aprender”, referindo-se às crises enfrentadas por países da região no passado recente.
O embaixador Rubens Barbosa, que liderou a missão brasileira em Londres e Washington, apontou que o País precisa de “mudanças profundas” para, de fato, exercer essa liderança. Segundo ele, a estratégia comercial adotada nos últimos oito anos pelo governo de Luiz Inácio Lula da Silva, tendo o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, à frente, não foi a mais adequada, ao dar prioridade a acordos multilaterais e não bilaterais.
Barbosa avaliou que a estratégia de privilegiar as relações comerciais com novos mercados pode ter ajudado o Brasil por conta do cenário de crise nos EUA e na Europa mas, segundo ele, não é uma boa estratégia, a longo prazo, deixar em segundo plano as maiores economias do mundo. “Essa crise vai passar”, lembrou o embaixador, destacando que hoje os Estados Unidos respondem atualmente por menos de 10% das exportações brasileiras.
De acordo com o embaixador, é necessário que o Brasil também repense a questão da integração regional, ainda mais por conta de um novo fator cada vez mais preocupante: a China, que vem aumentando a sua influência econômica na América Latina, inclusive concorrendo com produtos brasileiros. “A China vem aumentando sua presença na região e disputa com o Brasil o espaço vazio deixado pelos EUA”, ressaltou Barbosa.
O embaixador destacou que exercer um papel de liderança, ainda que regional, não é uma tarefa tão simples. “Há muitas diferença entre os países da região e elas vão se acentuar ainda mais se o Brasil continuar crescendo nos mesmos níveis, lembrou Barbosa.
Ainda no cenário externo, o embaixador disse que País também precisa repensar as relações mantidas com países que não respeitam os direitos humanos - numa referência à aproximação entre a diplomacia brasileira e iraniana.
O Irã, lembrou Barbosa é um dos motivos para o estremecimento das relações entre o Brasil e os Estados Unidos, somando-se à disputa no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC) por conta dos subsídios aos produtos de algodão americanos. O Brasil, após decisão da OMC, conseguiu o direito de aplicar contra-medidas a produtos dos EUA. Ocorreram negociações para adiar as sanções, mas elas não prosperaram. “Estamos no meio de uma crise nas relações entre o Brasil e os Estados Unidos”, ressaltou o embaixador.
“É preciso repensar tudo para exercer um papel de liderança. Para isso, você tem que agir como líder e o Brasil não está agindo”, opinou ele.
Barbosa destacou a questão da competitividade do Brasil no cenário internacional que, segundo ele, depende de mudanças estruturais na nossa economia. Ele lembrou os altos custos enfrentados pelas empresas brasileiras que são gerados, por exemplo, pelas deficiências no sistema de infra-estrutura que encarecem os transporte de mercadorias. Investir em infra-estrutura é ainda mais fundamental por conta da realização da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas do Rio em 2016, destacou o embaixador.
O embaixador ressaltou que a questão cambial terá ser enfrentada pelo próximo governo, por conta da deterioração das exportações e das contas externas. Ele colocou ainda, como tópicos importantes, reduzir as despesas públicas e elevar o nível de poupança interna.
O debate foi mediado pelo presidente do Conselho de Relações Internacionais da Fecomércio-SP, Mario Marconini. Ele ressaltou que as discussões sobre a industria, taxa de câmbio e a crescente invasão da indústria chinesa são pontos
centrais para o futuro da economia brasileira.
Marconini também assinalou que o Brasil também deve procurar o seu próprio modelo de crescimento, que pode se diferenciar, por exemplo, do adotado por países asiáticos. “A Ásia também teve que aprender algumas lições que não precisamos aprender”, referindo-se às crises enfrentadas por países da região no passado recente.
Reformas
Já o presidente do Itaú Unibanco, Roberto Setúbal, também presente ao simpósio, avaliou que reformas mais profundas não são tão necessárias ou urgentes, ao menos para sustentar o elevado crescimento econômico de 2010 pelos próximos anos. “Com microrreformas setoriais, o País pode manter o ritmo de 7% de avanço do Produto Interno Bruto (PIB) por um bom tempo”, destacou Setúbal, que comanda o maior conglomerado financeiro privado brasileiro.
Setúbal argumentou sobre a dificuldade prática de serem aprovadas no Brasil grandes reformas, como a tributária, trabalhista e política. “Essas reformas causariam discussões intermináveis e o País iria parar por meses. Ao final, poderiam nem alterar tanto as coisas”, destacou o executivo.
O presidente do Itaú Unibanco resssaltou que reformas que exigissem mudanças na Constituição exigiriam uma grande maioria no Congresso e o PMDB, que seria o fiel da balança, não é um partido que costuma ter posição única.
Setúbal preferiu ressaltar que medidas pontuais já tomadas no Brasil tiveram grande efeito prático, inclusive no setor financeiro. “Veja o caso da criação do crédito consignado, que produziu uma revolução em termos de crédito à pessoa física no Brasil", disse ele, que também citou como grande avanço a Lei das Falências. Ele ressaltou ainda que também não foi necessária uma reforma mais profunda para aprovar a Lei da Ficha Limpa, que barrou políticos condenados pela Justiça.
Sobre o novo papel de liderança do Brasil e dos Brics no cenário global, Setúbal demonstrou pouco otimismo. “O Brasil não está preparado para exercer essa liderança e os outros Brics também não”, opinou.
Potência
A vice-presidente do Banco Mundial para América Latina e Caribe, Pamela Cox, destacou que o Brasil terá que decidir qual será o papel que desempenhará num
cenário em que a hegemonia política e econômica, exercida há mais de um século pelos Estados Unidos e os países europeus, continuará se enfraquecendo, enquanto a liderança geopolítica passa a ser exercida pelos países emergentes, tendo os integrantes dos Bric - à frente.
Pamela Cox acha que o Brasil "já é uma potência", mas ressaltou que o país está num ponto crítico e há problemas que devem ser resolvidos. "É preciso investir no futuro. Não se pode depender somente do crédito público, as empresas precisam inovar e ter mais produtividade, e o País precisa investir pesadamente em infra`-estrutura e logística", afirmou, lembrando as dificuldades enfrentadas pelo exportadores brasileiros, por conta dos altos custos de transporte.
A executiva do Banco Mundial disse também que o Brasil precisa fortalecer o seu mercado de capitais, incentivando os investidores locais, para não depender excessivamente de recursos vindos do exterior.
A executiva ressaltou que todas essas mudanças têm que ser combinadas com investimentos em educação e conhecimento.
Pamela Cox destacou que a expansão economia nos últimos anos e o crescimento da classe média pode ser um fator positivo na cobrança de desempenho do governo. “Uma classe média forte vai querer responsabilidade por parte do governo, porque paga impostos”, lembrou ela.
O reitor da Fletcher School, Stephen Bosworth, conselheiro da Casa Branca para assuntos das Coréias, também destacou a importância do aumento da classe média brasileira. “O Brasil ganha a dianteira, porque incorporou milhões de pessoas à classe média, algo que os brasileiros deveriam se orgulhar". Mas igualmente alertou para a necessidade de o país acelerar investimentos em infra-estrutura e educação.
Bosworth também chamou a atenção sobre o crescimento da China no cenário global e as ações que o país tem realizado para manter seus altos níveis de crescimento. “A China está investindo fortemente em infra-estrutura dentro do país e comprando jazidas e terras em diversas partes do mundo”, destacou o reitor da Fletcher.
Internacionalização
O embaixador Rubens Barbosa destacou, durante o simpósio, a internacionalização das empresas brasileiras e a importância da competitividade do País para que esse processo continue avançando.
Barbosa lembrou que no campo do agronegócio o País investiu em tecnologia e se tornou um player global. “O Brasil é o único país que pode abastecer o mundo com qualquer tipo de produto”, ressaltou.
Já o presidente do Itaú Unibanco, Roberto Setúbal, avaliou que as empresas brasileiras devem continuar ampliando seus esforços no exterior, embora tenha ressaltado que no setor financeiro o processo caminha mais lentamente.
No que se refere ao Itaú Unibanco, ele afirmou que a tendência é continuar olhando para operações na América Latina. Mas, segundo ele, a velocidade de expansão vai depender das oportunidades de comprar novos ativos nos outros países da região. “Um banco não é como uma indústria, que pode chegar a um país e começar a produzir do zero. É necessário comprar um ativo local para iniciar as operações já com uma base de clientes”, ressaltou.
Para ele, as empresas precisam se perguntar por que precisam ter operações no exterior. "O país cresce forte, o mercado consumidor está em clara expansão e as perspectivas são ótimas", destacou Setúbal.
Mas, segundo Setúbal, há casos em que as operações externas apresentam grande vantagem, citando nominalmente o caso do concorrente Santander, banco espanhol que tem forte presença no mercado brasileiro e na América Latina.
"O Santander tem operações no Brasil e em outros países. Se estivesse apenas na Espanha seria um problema neste momento", se referindo à crise enfrentada pelo país sede do seu concorrente. "Hoje, as operações do Santander em outros países são muito importantes", complementou.
Publicação da Fecomercio-SP
Por Paulo Fortuna
Ao tomar posse em janeiro, a presidente eleita Dilma Rousseff terá que como desafio não somente garantir, internamente, que o País mantenha uma rota de crescimento sustentável mas, no campo externo, terá que lidar com uma nova perspectiva de liderança num novo cenário em que os Brics – o grupo de formado por Brasil, Rússia, Índia e China – passaram a ter papel mais decisivo na orquestração global. Para especialistas presentes ao debate “Brasil como Potência Emergente; desafios e opções”, realizado pelo Conselho de Relações Internacionais da Fecomercio-SP em parceria com a Fletcher Scholl, dos Estados Unidos, é extensa a agenda de ações estratégicas a serem deflagradas pelo novo governo brasileiro. Todo o conteúdo desta reportagem foi extraído do evento ocorrido em 21 de outubro na sede da Fecomercio, na capital paulista.
Na avaliação do presidente do Conselho de Relações Internacionais da Fecomércio, Mario Marconini, apontou que as discussões sobre a industria, taxa de câmbio e a crescente invasão da indústria chinesa são pontos
centrais para o futuro da economia brasileira.
Ele também assinalou que o Brasil também deve procurar o seu próprio modelo de crescimento, que pode se diferenciar, por exemplo, do adotado por países asiáticos. “A Ásia também teve que aprender algumas lições que não precisamos aprender”, referindo-se às crises enfrentadas por países da região no passado recente.
O embaixador Rubens Barbosa, que liderou a missão brasileira em Londres e Washington, apontou que o País precisa de “mudanças profundas” para, de fato, exercer essa liderança. Segundo ele, a estratégia comercial adotada nos últimos oito anos pelo governo de Luiz Inácio Lula da Silva, tendo o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, à frente, não foi a mais adequada, ao dar prioridade a acordos multilaterais e não bilaterais.
Barbosa avaliou que a estratégia de privilegiar as relações comerciais com novos mercados pode ter ajudado o Brasil por conta do cenário de crise nos EUA e na Europa mas, segundo ele, não é uma boa estratégia, a longo prazo, deixar em segundo plano as maiores economias do mundo. “Essa crise vai passar”, lembrou o embaixador, destacando que hoje os Estados Unidos respondem atualmente por menos de 10% das exportações brasileiras.
De acordo com o embaixador, é necessário que o Brasil também repense a questão da integração regional, ainda mais por conta de um novo fator cada vez mais preocupante: a China, que vem aumentando a sua influência econômica na América Latina, inclusive concorrendo com produtos brasileiros. “A China vem aumentando sua presença na região e disputa com o Brasil o espaço vazio deixado pelos EUA”, ressaltou Barbosa.
O embaixador destacou que exercer um papel de liderança, ainda que regional, não é uma tarefa tão simples. “Há muitas diferença entre os países da região e elas vão se acentuar ainda mais se o Brasil continuar crescendo nos mesmos níveis, lembrou Barbosa.
Ainda no cenário externo, o embaixador disse que País também precisa repensar as relações mantidas com países que não respeitam os direitos humanos - numa referência à aproximação entre a diplomacia brasileira e iraniana.
O Irã, lembrou Barbosa é um dos motivos para o estremecimento das relações entre o Brasil e os Estados Unidos, somando-se à disputa no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC) por conta dos subsídios aos produtos de algodão americanos. O Brasil, após decisão da OMC, conseguiu o direito de aplicar contra-medidas a produtos dos EUA. Ocorreram negociações para adiar as sanções, mas elas não prosperaram. “Estamos no meio de uma crise nas relações entre o Brasil e os Estados Unidos”, ressaltou o embaixador.
“É preciso repensar tudo para exercer um papel de liderança. Para isso, você tem que agir como líder e o Brasil não está agindo”, opinou ele.
Barbosa destacou a questão da competitividade do Brasil no cenário internacional que, segundo ele, depende de mudanças estruturais na nossa economia. Ele lembrou os altos custos enfrentados pelas empresas brasileiras que são gerados, por exemplo, pelas deficiências no sistema de infra-estrutura que encarecem os transporte de mercadorias. Investir em infra-estrutura é ainda mais fundamental por conta da realização da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas do Rio em 2016, destacou o embaixador.
O embaixador ressaltou que a questão cambial terá ser enfrentada pelo próximo governo, por conta da deterioração das exportações e das contas externas. Ele colocou ainda, como tópicos importantes, reduzir as despesas públicas e elevar o nível de poupança interna.
O debate foi mediado pelo presidente do Conselho de Relações Internacionais da Fecomércio-SP, Mario Marconini. Ele ressaltou que as discussões sobre a industria, taxa de câmbio e a crescente invasão da indústria chinesa são pontos
centrais para o futuro da economia brasileira.
Marconini também assinalou que o Brasil também deve procurar o seu próprio modelo de crescimento, que pode se diferenciar, por exemplo, do adotado por países asiáticos. “A Ásia também teve que aprender algumas lições que não precisamos aprender”, referindo-se às crises enfrentadas por países da região no passado recente.
Reformas
Já o presidente do Itaú Unibanco, Roberto Setúbal, também presente ao simpósio, avaliou que reformas mais profundas não são tão necessárias ou urgentes, ao menos para sustentar o elevado crescimento econômico de 2010 pelos próximos anos. “Com microrreformas setoriais, o País pode manter o ritmo de 7% de avanço do Produto Interno Bruto (PIB) por um bom tempo”, destacou Setúbal, que comanda o maior conglomerado financeiro privado brasileiro.
Setúbal argumentou sobre a dificuldade prática de serem aprovadas no Brasil grandes reformas, como a tributária, trabalhista e política. “Essas reformas causariam discussões intermináveis e o País iria parar por meses. Ao final, poderiam nem alterar tanto as coisas”, destacou o executivo.
O presidente do Itaú Unibanco resssaltou que reformas que exigissem mudanças na Constituição exigiriam uma grande maioria no Congresso e o PMDB, que seria o fiel da balança, não é um partido que costuma ter posição única.
Setúbal preferiu ressaltar que medidas pontuais já tomadas no Brasil tiveram grande efeito prático, inclusive no setor financeiro. “Veja o caso da criação do crédito consignado, que produziu uma revolução em termos de crédito à pessoa física no Brasil", disse ele, que também citou como grande avanço a Lei das Falências. Ele ressaltou ainda que também não foi necessária uma reforma mais profunda para aprovar a Lei da Ficha Limpa, que barrou políticos condenados pela Justiça.
Sobre o novo papel de liderança do Brasil e dos Brics no cenário global, Setúbal demonstrou pouco otimismo. “O Brasil não está preparado para exercer essa liderança e os outros Brics também não”, opinou.
Potência
A vice-presidente do Banco Mundial para América Latina e Caribe, Pamela Cox, destacou que o Brasil terá que decidir qual será o papel que desempenhará num
cenário em que a hegemonia política e econômica, exercida há mais de um século pelos Estados Unidos e os países europeus, continuará se enfraquecendo, enquanto a liderança geopolítica passa a ser exercida pelos países emergentes, tendo os integrantes dos Bric - à frente.
Pamela Cox acha que o Brasil "já é uma potência", mas ressaltou que o país está num ponto crítico e há problemas que devem ser resolvidos. "É preciso investir no futuro. Não se pode depender somente do crédito público, as empresas precisam inovar e ter mais produtividade, e o País precisa investir pesadamente em infra`-estrutura e logística", afirmou, lembrando as dificuldades enfrentadas pelo exportadores brasileiros, por conta dos altos custos de transporte.
A executiva do Banco Mundial disse também que o Brasil precisa fortalecer o seu mercado de capitais, incentivando os investidores locais, para não depender excessivamente de recursos vindos do exterior.
A executiva ressaltou que todas essas mudanças têm que ser combinadas com investimentos em educação e conhecimento.
Pamela Cox destacou que a expansão economia nos últimos anos e o crescimento da classe média pode ser um fator positivo na cobrança de desempenho do governo. “Uma classe média forte vai querer responsabilidade por parte do governo, porque paga impostos”, lembrou ela.
O reitor da Fletcher School, Stephen Bosworth, conselheiro da Casa Branca para assuntos das Coréias, também destacou a importância do aumento da classe média brasileira. “O Brasil ganha a dianteira, porque incorporou milhões de pessoas à classe média, algo que os brasileiros deveriam se orgulhar". Mas igualmente alertou para a necessidade de o país acelerar investimentos em infra-estrutura e educação.
Bosworth também chamou a atenção sobre o crescimento da China no cenário global e as ações que o país tem realizado para manter seus altos níveis de crescimento. “A China está investindo fortemente em infra-estrutura dentro do país e comprando jazidas e terras em diversas partes do mundo”, destacou o reitor da Fletcher.
Internacionalização
O embaixador Rubens Barbosa destacou, durante o simpósio, a internacionalização das empresas brasileiras e a importância da competitividade do País para que esse processo continue avançando.
Barbosa lembrou que no campo do agronegócio o País investiu em tecnologia e se tornou um player global. “O Brasil é o único país que pode abastecer o mundo com qualquer tipo de produto”, ressaltou.
Já o presidente do Itaú Unibanco, Roberto Setúbal, avaliou que as empresas brasileiras devem continuar ampliando seus esforços no exterior, embora tenha ressaltado que no setor financeiro o processo caminha mais lentamente.
No que se refere ao Itaú Unibanco, ele afirmou que a tendência é continuar olhando para operações na América Latina. Mas, segundo ele, a velocidade de expansão vai depender das oportunidades de comprar novos ativos nos outros países da região. “Um banco não é como uma indústria, que pode chegar a um país e começar a produzir do zero. É necessário comprar um ativo local para iniciar as operações já com uma base de clientes”, ressaltou.
Para ele, as empresas precisam se perguntar por que precisam ter operações no exterior. "O país cresce forte, o mercado consumidor está em clara expansão e as perspectivas são ótimas", destacou Setúbal.
Mas, segundo Setúbal, há casos em que as operações externas apresentam grande vantagem, citando nominalmente o caso do concorrente Santander, banco espanhol que tem forte presença no mercado brasileiro e na América Latina.
"O Santander tem operações no Brasil e em outros países. Se estivesse apenas na Espanha seria um problema neste momento", se referindo à crise enfrentada pelo país sede do seu concorrente. "Hoje, as operações do Santander em outros países são muito importantes", complementou.
quinta-feira, 25 de novembro de 2010
Construtoras têm obras de shoppings espalhadas por vários estados
Paulo Fortuna
Para o Valor, de São Paulo
O cenário que combina um aquecimento generalizado no mercado nacional da construção, crescimento no número de clientes impulsionado pela “nova classe média” e o desenvolvimento de polos econômicos regionais proporcionou uma nova realidade para as construtoras que atuam na área de shopping centers. As carteiras de clientes estão cada vez mais espalhadas por diversas regiões do País e a expectativa é que a massa de consumidores incorporada nos últimos anos ao público-alvo dos shoppings mantenha as encomendas de obras em alta. Em contrapartida, as negociações com os empreendedores dos centros comerciais têm que levar em consideração uma conjuntura de custos crescentes e elevado uso de capacidade no setor.
As carteiras de clientes das construtoras apontam que, apesar de ainda existirem oportunidades de negócios em São Paulo, Rio de Janeiro e outras capitais, há empreendimentos surgindo por todo o Brasil. “Dos 10 shoppings em que participamos da construção atualmente, 50% estão localizados fora da região Sudeste, que sempre concentrou os empreendimentos do setor. São três obras em andamento no Centro-Oeste e duas no Nordeste”, afirma o diretor de Edificações Privadas da Concremat”, André Marinho de Vasconcelos.
Dos 17 contratos em andamento da Racional Engenharia, nove são da área de shoppings, sendo duas recentemente entregues, o BH Shopping, na capital mineira, e o Park Shopping Barigui, em Curitiba. Dos demais empreendimentos que ainda estão em obras, dois estão localizados no Rio (VillageMall) e São Paulo (Mooca Plaza) e os demais em outras cidades. “Há uma tendência de descentralização das obras do setor em direção a novos polos econômicos do País”, diz o gerente sênior do Núcleo de Desenvolvimento de Negócios da Racional, Marcos Vicelli, citando como exemplo o Shopping Sete Lagoas, que a empresa está construindo no interior de Minas Gerais.
A João Fortes Engenharia também está construindo dois empreendimentos com essas características, o Shopping Park Europeu, em Blumenau (Santa Catarina) e o Shopping Park Lagos, em Cabo Frio (Rio de Janeiro). “Os shoppings estão sendo construídos em regiões com grande potencial econômico, o Vale do Itajaí e a região dos Lagos”, afirma o diretor nacional de operações da companhia, Wagner Lofare. Segundo Lofare, o Park Lagos é o primeiro empreendimento deste porte naquela região.
Juan Quirós, presidente do grupo Advento, do qual faz parte a Serpal Engenharia, ressalta que as maiores oportunidades nas grandes capitais estarão na ampliação dos empreendimentos já consolidados, mas também destaca o crescimento dos negócios nos polos econômicos regionais. A Serpal participou recentemente da ampliação dos shoppings Pátio Higienópolis e Anália Franco, está na fase final da construção da nova torre de lojas do Iguatemi, na capital paulista, e começou as obras do shopping do Grupo Sonae em Londrina, no Norte do Paraná. “Antigamente não se pensavam em projetos de grande porte fora das regiões metropolitanas, mas o shopping de Londrina vai atender ao público de toda a região”, ressalta Quirós.
Os executivos avaliam que o ciclo de aquecimento do mercado ainda deve perdurar por alguns anos também por conta do aumento de renda e crédito, que ampliou principalmente o consumo da classe C. “A chamada nova classe média vai continuar a impulsionar o setor de shoppings nos próximos anos. Já a construção de empreendimentos voltados para públicos de alto poder aquisitivo pode começar a apresentar uma saturação”, diz Vicelli, da Racional Engenharia. “Acreditamos que o mercado de construção de shopping centers possa até dobrar de tamanho por causa do crescimento do número de consumidores”, avalia Vasconcelos, da Concremat.
As negociações entre as construtoras e os empreendedores dos shoppings passam por uma fase de “ajustes” – inclusive na discussão de valores – afirmam executivos da área. Na avaliação de Quirós, do Grupo Advento, as construtoras procuram buscar uma relação “mais equilibrada” com os empreendedores. “O aquecimento de todos os segmentos da construção civil provocou um aumento de custos em itens como a mão-de-obra especializada e o aluguel de equipamentos”, destaca Quirós.
“Não adianta os empreendedores negociarem com construtoras que apresentem preços baixos e depois não têm musculatura para bancar as obras”, acrescenta ele. O executivo ressalta que as obras de shoppings têm um grau de complexidade mais elevado do que outros tipos de construção. “No início das obras, temos apenas um cliente, que é o shopping. Ao final, temos que atender as exigências de uma série de lojistas, tanto o dono de uma loja de 20 metros quadrados, quanto aquele que tem 20 mil. E temos que atender bem a todos”, ressalta Quirós.
O Índice Nacional da Construção Civil (Sinapi), calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em convênio com Caixa Econômica Federal (CEF), variou 0,51% em outubro, acelerando 0,16 ponto percentual em relação ao resultado de setembro (0,35%). O acumulado do ano foi 6,34%, contra 4,93% observados em igual período de 2009. Nos últimos doze meses, a variação foi de 7,26%, enquanto no mesmo período anterior o índice ficou em 7,08%
O item materiais subiu 0,50%, acima da taxa de setembro (0,41%). A parcela de mão-de-obra registrou variação de 0,53%, superior a de setembro (0,27%). De janeiro a outubro, a alta dos materiais fechou em 4,26%, acima dos 3,41% de igual período do ano passado, e a mão-de-obra (9,16%) também teve resultado superior em comparação com período equivalente de 2009 (7,08%). Nos últimos doze meses, os materiais tiveram alta de 5,15%, enquanto a mão-de-obra subiu 10,14%.
As construtoras também buscam estratégias para evitar ao máximo riscos de atrasos ou perdas de qualidade nas obras. A João Fortes Engenharia trabalha com projetos de pré-moldados que possibilitam que a empresa transforme os canteiros de obras em “fábricas de shoppings”. “Com isso, conseguimos minimizar problemas como a dificuldades para a contratação de mão-de-obra especializada e a locação de equipamentos”, afirma Lofare.
Vicelli, da Racional, diz que estratégia da empresa é investir na fase de “pré-construção” dos shoppings, enquanto os ajustes finais da contratação das obras ainda estão em discussão. “No período de quatro a cinco meses, enquanto trabalhamos para melhorar os detalhes dos projetos, nos já vamos ao mercado e fazemos uma pré-reserva de equipamentos, por exemplo. Dessa forma, já temos tudo acertado quando iniciamos as obras e reduzimos os riscos de atrasos”, diz Vicelli.
Vasconcelos, da Concremat, ressalta que em qualquer área da construção civil a questão do prazo é essencial, mas neste setor os atrasos geram um problema extra, já que é receita que deixa de ser gerada para os shoppings e os lojistas.
“Um dos riscos do aquecimento do mercado é o descumprimento dos prazos por parte de construtoras que não estão bem estruturadas. Com o movimento de expansão, a capacidade de gestão das obras passa a ser notória”, destaca Vasconcelos. De acordo com ele, mais do que negociar os preços das obras, há a necessidade de apresentar soluções para que os shoppings racionalizem os custos de operação, mantendo o mesmo padrão de atendimento.
Para o Valor, de São Paulo
O cenário que combina um aquecimento generalizado no mercado nacional da construção, crescimento no número de clientes impulsionado pela “nova classe média” e o desenvolvimento de polos econômicos regionais proporcionou uma nova realidade para as construtoras que atuam na área de shopping centers. As carteiras de clientes estão cada vez mais espalhadas por diversas regiões do País e a expectativa é que a massa de consumidores incorporada nos últimos anos ao público-alvo dos shoppings mantenha as encomendas de obras em alta. Em contrapartida, as negociações com os empreendedores dos centros comerciais têm que levar em consideração uma conjuntura de custos crescentes e elevado uso de capacidade no setor.
As carteiras de clientes das construtoras apontam que, apesar de ainda existirem oportunidades de negócios em São Paulo, Rio de Janeiro e outras capitais, há empreendimentos surgindo por todo o Brasil. “Dos 10 shoppings em que participamos da construção atualmente, 50% estão localizados fora da região Sudeste, que sempre concentrou os empreendimentos do setor. São três obras em andamento no Centro-Oeste e duas no Nordeste”, afirma o diretor de Edificações Privadas da Concremat”, André Marinho de Vasconcelos.
Dos 17 contratos em andamento da Racional Engenharia, nove são da área de shoppings, sendo duas recentemente entregues, o BH Shopping, na capital mineira, e o Park Shopping Barigui, em Curitiba. Dos demais empreendimentos que ainda estão em obras, dois estão localizados no Rio (VillageMall) e São Paulo (Mooca Plaza) e os demais em outras cidades. “Há uma tendência de descentralização das obras do setor em direção a novos polos econômicos do País”, diz o gerente sênior do Núcleo de Desenvolvimento de Negócios da Racional, Marcos Vicelli, citando como exemplo o Shopping Sete Lagoas, que a empresa está construindo no interior de Minas Gerais.
A João Fortes Engenharia também está construindo dois empreendimentos com essas características, o Shopping Park Europeu, em Blumenau (Santa Catarina) e o Shopping Park Lagos, em Cabo Frio (Rio de Janeiro). “Os shoppings estão sendo construídos em regiões com grande potencial econômico, o Vale do Itajaí e a região dos Lagos”, afirma o diretor nacional de operações da companhia, Wagner Lofare. Segundo Lofare, o Park Lagos é o primeiro empreendimento deste porte naquela região.
Juan Quirós, presidente do grupo Advento, do qual faz parte a Serpal Engenharia, ressalta que as maiores oportunidades nas grandes capitais estarão na ampliação dos empreendimentos já consolidados, mas também destaca o crescimento dos negócios nos polos econômicos regionais. A Serpal participou recentemente da ampliação dos shoppings Pátio Higienópolis e Anália Franco, está na fase final da construção da nova torre de lojas do Iguatemi, na capital paulista, e começou as obras do shopping do Grupo Sonae em Londrina, no Norte do Paraná. “Antigamente não se pensavam em projetos de grande porte fora das regiões metropolitanas, mas o shopping de Londrina vai atender ao público de toda a região”, ressalta Quirós.
Os executivos avaliam que o ciclo de aquecimento do mercado ainda deve perdurar por alguns anos também por conta do aumento de renda e crédito, que ampliou principalmente o consumo da classe C. “A chamada nova classe média vai continuar a impulsionar o setor de shoppings nos próximos anos. Já a construção de empreendimentos voltados para públicos de alto poder aquisitivo pode começar a apresentar uma saturação”, diz Vicelli, da Racional Engenharia. “Acreditamos que o mercado de construção de shopping centers possa até dobrar de tamanho por causa do crescimento do número de consumidores”, avalia Vasconcelos, da Concremat.
As negociações entre as construtoras e os empreendedores dos shoppings passam por uma fase de “ajustes” – inclusive na discussão de valores – afirmam executivos da área. Na avaliação de Quirós, do Grupo Advento, as construtoras procuram buscar uma relação “mais equilibrada” com os empreendedores. “O aquecimento de todos os segmentos da construção civil provocou um aumento de custos em itens como a mão-de-obra especializada e o aluguel de equipamentos”, destaca Quirós.
“Não adianta os empreendedores negociarem com construtoras que apresentem preços baixos e depois não têm musculatura para bancar as obras”, acrescenta ele. O executivo ressalta que as obras de shoppings têm um grau de complexidade mais elevado do que outros tipos de construção. “No início das obras, temos apenas um cliente, que é o shopping. Ao final, temos que atender as exigências de uma série de lojistas, tanto o dono de uma loja de 20 metros quadrados, quanto aquele que tem 20 mil. E temos que atender bem a todos”, ressalta Quirós.
O Índice Nacional da Construção Civil (Sinapi), calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em convênio com Caixa Econômica Federal (CEF), variou 0,51% em outubro, acelerando 0,16 ponto percentual em relação ao resultado de setembro (0,35%). O acumulado do ano foi 6,34%, contra 4,93% observados em igual período de 2009. Nos últimos doze meses, a variação foi de 7,26%, enquanto no mesmo período anterior o índice ficou em 7,08%
O item materiais subiu 0,50%, acima da taxa de setembro (0,41%). A parcela de mão-de-obra registrou variação de 0,53%, superior a de setembro (0,27%). De janeiro a outubro, a alta dos materiais fechou em 4,26%, acima dos 3,41% de igual período do ano passado, e a mão-de-obra (9,16%) também teve resultado superior em comparação com período equivalente de 2009 (7,08%). Nos últimos doze meses, os materiais tiveram alta de 5,15%, enquanto a mão-de-obra subiu 10,14%.
As construtoras também buscam estratégias para evitar ao máximo riscos de atrasos ou perdas de qualidade nas obras. A João Fortes Engenharia trabalha com projetos de pré-moldados que possibilitam que a empresa transforme os canteiros de obras em “fábricas de shoppings”. “Com isso, conseguimos minimizar problemas como a dificuldades para a contratação de mão-de-obra especializada e a locação de equipamentos”, afirma Lofare.
Vicelli, da Racional, diz que estratégia da empresa é investir na fase de “pré-construção” dos shoppings, enquanto os ajustes finais da contratação das obras ainda estão em discussão. “No período de quatro a cinco meses, enquanto trabalhamos para melhorar os detalhes dos projetos, nos já vamos ao mercado e fazemos uma pré-reserva de equipamentos, por exemplo. Dessa forma, já temos tudo acertado quando iniciamos as obras e reduzimos os riscos de atrasos”, diz Vicelli.
Vasconcelos, da Concremat, ressalta que em qualquer área da construção civil a questão do prazo é essencial, mas neste setor os atrasos geram um problema extra, já que é receita que deixa de ser gerada para os shoppings e os lojistas.
“Um dos riscos do aquecimento do mercado é o descumprimento dos prazos por parte de construtoras que não estão bem estruturadas. Com o movimento de expansão, a capacidade de gestão das obras passa a ser notória”, destaca Vasconcelos. De acordo com ele, mais do que negociar os preços das obras, há a necessidade de apresentar soluções para que os shoppings racionalizem os custos de operação, mantendo o mesmo padrão de atendimento.
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
Cliente private quer segurança, liquidez e conhecimento
Paulo Fortuna
Para o Valor, de São Paulo
Atender às expectativa de quem tem pelo menos R$ 1 milhão disponível para investir nem sempre é uma tarefa simples e, após a crise financeira global deflagrada em 2008, tornou-se ainda mais complicada. “Muitos clientes que tiveram perdas durante a crise ficaram mal impressionados com o gestores de suas contas de private banking. Eles avaliam que os bancos foram muito imprudentes ou gananciosos e passaram a ser mais cautelosos com seus investimentos”, afirma o economista Celso Grisi, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA/USP) e diretor presidente do Instituto de Pesquisas Fractal.
Estudo realizado pelo Fractal em abril deste ano mostrou que mesmo os mais insatisfeitos com a atuação dos bancos durante a crise não desistiram de manter seus investimentos no private, mas prometeram acompanhar mais de perto o destino do seu dinheiro. Grisi destaca que os clientes deste segmento passaram a cobrar mais conhecimento técnico sobre as operações financeiras oferecidas pela instituição.
“De um lado, os clientes passaram a preferir mais segurança e liquidez do que rentabilidade e, de outro, ele exigem explicações mais técnicas e embasadas sobre a regulamentação das aplicações e os riscos embutidos nas operações”, afirma o professor.
O economista lembra que nem sempre o cliente private conhece bem as especificidades do mercado financeiro ou tem tempo de acompanhar o que acontece no setor. “Neste caso, ele exige ser informado sobre qualquer mudança no mercado, como uma alteração na carga tributária, que pode afetar o seu investimento”, diz o economista.
O estudo do Fractal apontou que o principal item valorizado pelos clientes private foi a disponibilidade do profissional que o atende no banco. Em seguida, veio o
o conhecimento dos produtos e serviços oferecidos pela instituição financeira. “Organização, objetividade e eficiência no atendimento” apareceu como o terceiro item de destaque na pesquisa, feita com entrevistados. Na quarta colocação, a “transparência e sinceridade no relacionamento com o cliente” foi o mais lembrado. Do total dos entrevistados, 84% investiam somente no private dos bancos e o restante aplicava com gestores independentes.
O consultor financeiro Vinicius Gholmie já detectou a insatisfação de muitos de seus clientes com o atendimento da área de private banking de grandes instituições financeiras. “Em alguns bancos, o gerente private acaba dando prioridade para clientes que têm grandes volumes aplicados, enquanto aqueles que possuem investimentos na faixa de R$ 3 milhões não recebem a mesma atenção”, ressalta ele.
Uma estratégia adotada por Gholmie para lidar com a situação foi reunir várias contas de clientes private para fazer uma negociação conjunta com o gerente da área. “Com R$ 30 milhões em investimentos reunidos, consigo condições melhores de negociação com o banco”, explica o consultor financeiro.
O nível de qualificação do executivo desta área pode ser decisivo na decisão do cliente em continuar investimento no banco, destaca o economia Roy Martelanc, coordenador do curso de pós-graduação em private banking e corporate da Fundação Instituto de Administração (Fia). Martelanc ressalta que a crise global de 2008 e 2009 trouxe um novo paradigma para o setor: o mercado, com as perdas financeiras e enxugamento do setor, tornou-se mais exigente e quem tinha uma formação menos sólida tornou-se um candidato preferencial a perder o emprego.
Segundo Martelanc, a maioria dos bancos oferece cursos de formação internos sobre os produtos disponíveis, em especial os voltados para clientes de maior poder aquisitivo. Mas, lembra ele, nem sempre o profissional tem um conhecimento profundo de todos os mecanismos que existem no mercado. “Ele até pode conhecer quais são os produtos o banco oferece, mas isso não quer dizer que entenda profundamente como cada um deles funciona”, destaca o professor.
Foi justamente por conta da demanda pela qualificação técnica que a Fia implantou o seu curso voltado para a área a partir de 2008. De acordo com Martelanc, até então os profissionais interessados neste segmento procuravam pós-graduações oferecidas pela instituição com grades curriculares aproximadas.
O professor lembra que, em alguns casos, o resultado da falta de qualificação
pode ser a venda de um produto que não necessariamente seria o mais indicado para as necessidades do investidor. “Isso pode ser danoso não somente para o cliente, por conta da limitação do profissional que o atendeu, mas também para o banco, que pode ter a sua imagem comprometida”, diz Martelanc.
Para o Valor, de São Paulo
Atender às expectativa de quem tem pelo menos R$ 1 milhão disponível para investir nem sempre é uma tarefa simples e, após a crise financeira global deflagrada em 2008, tornou-se ainda mais complicada. “Muitos clientes que tiveram perdas durante a crise ficaram mal impressionados com o gestores de suas contas de private banking. Eles avaliam que os bancos foram muito imprudentes ou gananciosos e passaram a ser mais cautelosos com seus investimentos”, afirma o economista Celso Grisi, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA/USP) e diretor presidente do Instituto de Pesquisas Fractal.
Estudo realizado pelo Fractal em abril deste ano mostrou que mesmo os mais insatisfeitos com a atuação dos bancos durante a crise não desistiram de manter seus investimentos no private, mas prometeram acompanhar mais de perto o destino do seu dinheiro. Grisi destaca que os clientes deste segmento passaram a cobrar mais conhecimento técnico sobre as operações financeiras oferecidas pela instituição.
“De um lado, os clientes passaram a preferir mais segurança e liquidez do que rentabilidade e, de outro, ele exigem explicações mais técnicas e embasadas sobre a regulamentação das aplicações e os riscos embutidos nas operações”, afirma o professor.
O economista lembra que nem sempre o cliente private conhece bem as especificidades do mercado financeiro ou tem tempo de acompanhar o que acontece no setor. “Neste caso, ele exige ser informado sobre qualquer mudança no mercado, como uma alteração na carga tributária, que pode afetar o seu investimento”, diz o economista.
O estudo do Fractal apontou que o principal item valorizado pelos clientes private foi a disponibilidade do profissional que o atende no banco. Em seguida, veio o
o conhecimento dos produtos e serviços oferecidos pela instituição financeira. “Organização, objetividade e eficiência no atendimento” apareceu como o terceiro item de destaque na pesquisa, feita com entrevistados. Na quarta colocação, a “transparência e sinceridade no relacionamento com o cliente” foi o mais lembrado. Do total dos entrevistados, 84% investiam somente no private dos bancos e o restante aplicava com gestores independentes.
O consultor financeiro Vinicius Gholmie já detectou a insatisfação de muitos de seus clientes com o atendimento da área de private banking de grandes instituições financeiras. “Em alguns bancos, o gerente private acaba dando prioridade para clientes que têm grandes volumes aplicados, enquanto aqueles que possuem investimentos na faixa de R$ 3 milhões não recebem a mesma atenção”, ressalta ele.
Uma estratégia adotada por Gholmie para lidar com a situação foi reunir várias contas de clientes private para fazer uma negociação conjunta com o gerente da área. “Com R$ 30 milhões em investimentos reunidos, consigo condições melhores de negociação com o banco”, explica o consultor financeiro.
O nível de qualificação do executivo desta área pode ser decisivo na decisão do cliente em continuar investimento no banco, destaca o economia Roy Martelanc, coordenador do curso de pós-graduação em private banking e corporate da Fundação Instituto de Administração (Fia). Martelanc ressalta que a crise global de 2008 e 2009 trouxe um novo paradigma para o setor: o mercado, com as perdas financeiras e enxugamento do setor, tornou-se mais exigente e quem tinha uma formação menos sólida tornou-se um candidato preferencial a perder o emprego.
Segundo Martelanc, a maioria dos bancos oferece cursos de formação internos sobre os produtos disponíveis, em especial os voltados para clientes de maior poder aquisitivo. Mas, lembra ele, nem sempre o profissional tem um conhecimento profundo de todos os mecanismos que existem no mercado. “Ele até pode conhecer quais são os produtos o banco oferece, mas isso não quer dizer que entenda profundamente como cada um deles funciona”, destaca o professor.
Foi justamente por conta da demanda pela qualificação técnica que a Fia implantou o seu curso voltado para a área a partir de 2008. De acordo com Martelanc, até então os profissionais interessados neste segmento procuravam pós-graduações oferecidas pela instituição com grades curriculares aproximadas.
O professor lembra que, em alguns casos, o resultado da falta de qualificação
pode ser a venda de um produto que não necessariamente seria o mais indicado para as necessidades do investidor. “Isso pode ser danoso não somente para o cliente, por conta da limitação do profissional que o atendeu, mas também para o banco, que pode ter a sua imagem comprometida”, diz Martelanc.
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